A conclusão do acordo da Parceria Transpacífico (TPP) terá impacto importante sobre as exportações brasileiras, concordam analistas. A abertura comercial e a convergência regulatória dos 12 países deve provocar desvio comércio desfavorável ao Brasil tanto para produtos agrícolas quanto manufaturados.
Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a assinatura do TPP torna urgente a celebração pelo Brasil de novos acordos e a ampliação dos já existentes. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) diz que não se deve descartar a possibilidade de o Brasil estudar a adesão ao TPP.
Na parte agrícola, o TPP vai provocar forte desvio dos fluxos de comércio do Brasil para a Ásia, em favor de EUA, Canadá e Austrália, avalia Marcos Junk, diretor de assuntos corporativos na Ásia­Pacífico da BRF, sediado em Cingapura. Para ele, a concretização do mega­acordo "é um imenso alerta para o Brasil, que já perdeu mais de uma década, sair também correndo atrás de seus acordos comerciais".
Em termos financeiros, o TPP cobre dez vezes mais comércio agrícola do que o acordo que está sendo negociado entre os EUA e a União Europeia (UE), conhecido pela sigla TTIP, calcula o International Centre for Trade and Sustainable Development (ITCSD), em Genebra. A entidade estima que, atualmente, o comércio agrícola entre os membros do TPP alcance US$ 311 bilhões.
Além da redução de tarifas, o impacto mais importante sobre o Brasil pode vir através da chamada "coerência regulatória" no novo bloco econômico, com a tentativa de harmonizar todas as regulações ligadas a questões técnicas e de segurança de alimentos. Isso deve elevar as barreiras contra importações de fora do bloco. Padrões mais altos devem causar custos adicionais e afetar a competitividade de exportadores agrícolas. Para Pedro de Camargo Neto, especialista agrícola brasileiro, o Brasil, que já está ameaçado de ganhar quase nada na Rodada Doha, sai perdendo também com o TPP.
Diego Bonomo, gerente de comércio exterior da CNI, diz que o desvio de comércio pode começar antes mesmo da parceria ser legalmente implementada. "Esse avanço faz com que as empresas dos países participantes do TPP já passem a dar preferência a parceiros comerciais dos demais membros, já tentando facilitar negociações que terão tarifas e condições mais favoráveis." Isso se aplica, diz, principalmente às grandes empresas, que têm planos comerciais para os próximos cinco ou dez anos.
Thomaz Zanotto, diretor de relações internacionais da Fiesp, destaca a natureza do acordo, que pode acelerar a negociação da TTIP. Mesmo sem a China, diz, os dois tratados irão abarcar perto de 75% do comércio de bens e mais de 90% em termos de serviços financeiros e tecnologia. Para ele, a magnitude dos acordos e a aparente flexibilidade da TPP faz com que o Brasil não possa descartar estudar sua adesão. "Talvez a adesão do Brasil à TPP seja mais rápida e vantajosa, por conta da flexibilidade, do que a assinatura de acordo bilateral com os EUA ou o Nafta."
O diretor­geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, disse esperar que a conclusão do TPP sirva de inspiração para o desbloqueio da Rodada Doha no fim do ano. "Espero que o resultado em Atlanta (da TPP) servirá como uma inspiração para os membros da OMC, na medida em que procuramos resultados substanciais em Nairóbi (Quênia)."
 
Fonte: Valor Econômico