É fato que a humanidade necessita aumentar sua eficiência energética para não exaurir as fontes não renováveis do planeta, e para isso, a diminuição do consumo de energia não-renovável, o aumento do uso de fontes de energia renováveis e o aumento na eficiência energética são os itens mais importantes na sustentabilidade da humanidade como um todo.
 
 
Outro problema a ser enfrentado é a necessária redução da emissão de gases de efeito estufa, atendendo ao protocolo de Kyoto, diminuindo a ação humana num possível aquecimento global devido a uma alteração na composição atmosférica.
 
A busca dessa maior sustentabilidade obriga a uma promoção da segurança energética, seja promovendo o desenvolvimento e a inovação tecnológica, o desenvolvimento de empregos locais – especialmente em áreas isoladas – , incentivando o uso de transporte público, o uso de tecnologias de baixo consumo energético, e o uso de fontes de energia renováveis no transporte. Essas são as mais efetivas ferramentas disponíveis para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e a dependência em fontes não renováveis de energia, notadamente o petróleo, onde sua falta influenciaria mais notadamente o sistema de transporte.
 
Politicas públicas de fomento ao desenvolvimento de fontes de energia sustentáveis têm ocorrido em diversos países, como o Programa Proálcool no Brasil, incentivos à produção de álcool de milho nos EUA e de biodiesel em diversos países, o que permitiu o desenvolvimento de pequenas, médias e grandes empresas, dando oportunidade ao desenvolvimento regional, envolvendo uma grande gama de empreendimentos, como produtores e trabalhadores rurais e associação de coletores por exemplo.
 
Acreditamos que todos governos devam estimular o desenvolvimento nacional e regional, mensurando-se localmente, encorajando a troca das melhores práticas de produção de energia à partir de fontes renováveis, fornecendo o apoio estrutural (estradas, ferrovias, hidrovias, etc) necessárias para tal.
 
Reforçamos que ao favorecer o desenvolvimento do mercado de fontes de energia renováveis regional, é necessário que o governo sempre leve em consideração os impactos e oportunidades, a possibilidade de exportação, o aumento da qualidade de vida e empregos gerados na região.
 
Portanto é apropriado incentivar a produção e comercialização descentralizada de fontes de energia renováveis, pois esse movimento de produção descentralizada possui muitos benefícios, incluindo o aumento do consumo de fontes de energia locais, aumento da segurança energética local, menores distâncias para transporte de combustíveis e redução na perda de transmissão de energia a longas distâncias, seja via perdas de transmissão energética, seja via transporte de combustíveis. Essa descentralização ainda estimula a consciência da sociedade local, incrementando ainda mais sua coesão.
 
Nesse sentido, em 23 de Abril de 2009, o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu publicaram uma diretiva com o objetivo de promover o uso de energia de fontes renováveis no Velho Continente, a chamada Diretiva 2009/28/EC, atuando principalmente na promoção de uso de biocombustíveis para os modais de transporte, estabelecendo definições para as diferentes fontes renováveis, além de estabelecer regras comuns para o mercado interno do setor elétrico em geral, dando certa clareza legal ao uso dessas fontes renováveis.
 
Ficou estabelecido nessa Diretiva que 20% de toda a matriz energética de toda a Comunidade Europeia e 10% de toda a energia gasta em transportes deverão ser geradas à partir de fontes renováveis. Vejamos o quadro atual do países da Comunidade Européia:
 

País

Participação de fontes renováveis na matriz energética em 2005

Participação de fontes energéticas na matriz energética em 2020

Bélgica

2,2%

13%

Bulgária

9,4%

16%

Rep. Tcheca

6,1%

13%

Dinamarca

17%

30%

Alemanha

5,8%

18%

Estônia

18,0%

25%

Irlanda

3,1%

16%

Grécia

6,9%

18%

Espanha

8,7%

20%

França

10,3%

23%

Itália

5,2%

17%

Cyprus

2,9%

13%

Lituânia

15%

23%

Luxemburgo

0,9%

11%

Hungria

4,3%

13%

Malta

0,0%

10%

Holanda

2,4%

14%

Áustria

23,3%

34%

Polônia

7,2%

15%

Portugal

20,5%

31%

Romênia

17,8%

24%

Eslovênia

16,0%

25%

Finlândia

28,5%

38%

Suécia

39,8%

49%

Reino Unido

1,3%

15%

 
Uma das maiores dificuldades para a implantação desse planejamento seria em como aferir essa proporção e como selecionar as fontes renováveis de menor impacto ambiental. Para se evitar um possível peso administrativo desproporcional no cálculo oficial de redução de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) entre os países da Comunidade Europeia, uma lista com valores padronizados das diversas fontes renováveis foi estabelecida. As empresas podem utilizar essa lista caso queiram solicitar créditos de carbono para os biocombustíveis citados nessa lista, padronizando os valores entre os diversos países.
 
Para o cálculo de balanço do GEE para a produção, transporte e uso de biocombustíveis, foi utilizada a seguinte fórmula:
GEE = eec + el + ep + etd – esca – eccs – eccr – eee’
 
Onde:
GEE = emissão total no uso do combustível, expressa gramas de CO2 por M Joule de combustível (gCO2ep/MJ)
eec  = emissão devido a extração ou cultivo da matéria-prima
el = emissão anualizada na mudança dos estoques de carbono causada pelo uso da terra
ep = emissão no processamento
etd = emissão no transporte e distribuição
esca = captação de carbono no solo via melhorias de manejo cultural
eccs = captação de carbono via captura e estocagem geológica
eccr = captação de carbono via captura e troca
eee’= captação de carbono pela cogeração de energia elétrica
Relação entre CO2 e os demais gases de efeito estufa = 1 N2O : 296 CO2  ;  1 CH4 : 23 CO2
 
Essa fórmula permitiu se chegar aos seguintes números de emissão total de GEE para o cultivo, processamento, transporte e distribuição das principais fontes de biocombustíveis:
 

Biocombustível

GEE típico (gCO2eq/MJ)

GEE padrão (gCO2eq/MJ)

Etanol de beterraba

33

40

Etanol de trigo + co-processamento de gás natural

39

44

Etanol do milho

37

43

Etanol de cana-de-açucar

24

24

Biodiesel de canola

46

52

Biodiesel de girassol

35

41

Biodiesel de soja

50

58

Biodiesel de palma

32

37

Biodiesel de óleo reciclado e gordura animal

10

14

Biogás de lixo orgânico

17

23

Biogás de esgoto (ou esterco) líquido

13

16

Biogás de esgoto (ou esterco) seco

12

15

 
Onde:
GEE Típico é o valor da emissão total esperada por MJ de energia presente no combustível
GEE Padrão é o valor da emissão total prevendo fatores de risco por MJ de energia presente no combustível
 
Essa tabela nos mostra que ao considerarmos todo o processo de coleta, fabricação e distribuição, o biodiesel à partir de gorduras animais e óleo de cozinha reciclado é a fonte renovável que emite menos GEE por MJoule de energia gerada para uso como combustível no Velho Continente, entre 10 e 14g de CO2/MJ, sendo menos poluidora que outras fontes tradicionais, como o etanol de cana-de-açúcar (24g de CO2/MJ),biodiesel de óleo de palma (entre 32 e 37 g de CO2/MJ) e o biodiesel de óleo de soja (entre 50 e 58 g de CO2/MJ).
 
No ano de 2010, a matriz energética brasileira contou com 45,4% de toda a energia gerada advinda de fontes consideradas renováveis, como a Hidráulica (14,2%), Lenha e carvão vegetal (9,6%), Cana e derivados (17,7%), sendo que outras fontes renováveis responderam por 3,9% do total. Nessas outras fontes renováveis, incluem-se a energia heólica, a lixívia (sub-produto do processamento de papel Kraft) e o Programa de Biodiesel Brasileiro, provando que nosso país é referência mundial no uso de fontes renováveis.
De acordo com dados da ANP, no mês de Agosto de 2012 se produziu pouco mais de 255 mil m3 de biodiesel, sendo que apenas 15,85% do total foi produzido à partir de gorduras animais. O óleo de soja contribuiu com 78,6% do total.
 
A Associação Brasileira de Reciclagem Animal – ABRA acredita que as gorduras animais podem e devem aumentar sua participação no mercado de produção do Biodiesel, não apenas pelo fato dos fabricantes de gorduras animais possuírem uma boa distribuição geográfica no território nacional ou pelo fato do produto ser mais econômico que outras fontes de gorduras disponíveis, mas também pela verdade que a gordura animal é a fonte de energia renovável mais limpa que temos à disposição, ao passo que o óleo de soja, é a fonte de energia renovável menos eficiente no balanço final de emissão de gases de efeito estufa, afinal, a gordura animal gera 5 vezes menos GEE que o óleo de soja.
 
A Reciclagem Animal pode ajudar o Brasil a ser ainda mais eficiente na redução de emissão de Gases de Efeito Estufa.
 
Fontes:
Diretiva 2009/28/EC do Parlamento e do Conselho Europeu de 23 de Abril de 2009
Boletim Mensal do Biodiesel – Setembro de 2012 – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.
Balanço Energético Nacional 2011, Ano Base 2010 – Empresa Brasileira de pesquisa Energética