O Brasil é um país conhecido mundialmente pelo seu potencial agropecuário. Desde o início do século passado que o agronegócio é a principal força da economia brasileira.
 

Historicamente, a agricultura sempre teve uma participação superior à da pecuária no mercado, tanto em volume de produção quanto na pauta de exportações. Porém, nas últimas décadas houve um crescimento muito rápido da produção animal no Brasil, motivada pelo aumento do consumo interno e externo e pelos avanços tecnológicos na área. Atualmente, nosso país figura entre os maiores produtores e exportadores de carne no mundo, além de grande consumidor também. Na Coluna Mercado de hoje, vamos falar a respeito do consumo de carnes pelo brasileiro (com destaque para a carne suína), e sobre os fatores socioeconômicos e demográficos que influenciam na dinâmica desse consumo. Um interessante trabalho (SCHLINDWEIN e KASSOUF; 2006) publicado na Revista de Economia Rural, feito por professoras de economia da Escola Superior de Agronomia “Luiz de Queiroz” (ESALQ), analisou o consumo doméstico (consumo das famílias em domicílio) de carnes pelo brasileiro. O objetivo desse artigo foi justamente observar como esses fatores alteram os padrões de consumo de carnes pela população brasileira.
 
Durante as últimas décadas, muitas mudanças econômicas, demográficas e sociais vêm ocorrendo em diversas partes do mundo, e o nosso país está entre os que mais sofreram essas variações. A economia brasileira cresceu como um todo, prova disso são o aumento da renda média, a maior oferta de empregos e um significativo crescimento no consumo de produtos, bens e serviços por classes que antes pouco consumiam. E essas mudanças alteram significativamente os hábitos gastronômicos das famílias, que passaram a adquirir tipos e qualidades de alimentos que antes não caberiam no orçamento.

 
Junto com essas mudanças econômicas, vieram as sociais e demográficas, que também podem influenciar os hábitos alimentares. O trabalho citado analisou variáveis como, a renda e a composição das famílias, o grau de urbanização, o gasto domiciliar com diferentes tipos de carne, entre outros fatores.
 
Para avaliar como estes fatores afetam o consumo de determinados produtos, os autores utilizaram os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002-2003, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esta pesquisa mensurou, fundamentalmente, as estruturas de consumo, dos gastos e dos rendimentos das famílias e traçou um perfil das condições de vida da população brasileira a partir da análise de seus orçamentos domésticos. A coleta dos dados da referida pesquisa foi realizada nas áreas urbanas e rurais, em todo o território nacional, sendo entrevistado um total de 48.470 domicílios.
 
Os fatores demográficos incluem a região e a urbanização. No primeiro aspecto, é possível observar que o consumo domiciliar per capita de carne bovina da região Norte é 38% superior à média nacional e 63% superior ao consumo médio da região Sudeste. Vale lembrar que estamos falando de consumo domiciliar, e que este reflete também o hábito de preparar alimentos na residência, o que, em áreas mais afluentes tende a cair. Analisando o consumo da carne suína, pode-se verificar que na região Sul é 90% maior que a média do Brasil e 273% superior ao consumo do Nordeste, que é a região que menos consome esse tipo de carne. Isso pode ser explicado pela grande quantidade de granjas de suínos instaladas nos estados do sul do país, e pela própria cultura local de consumir com freqüência alimentos embutidos derivados da carne suína, fruto da colonização de alemães e italianos nas cidades gaúchas e catarinenses. Verificou-se também que a carne suína ainda é a menos consumida na média do Brasil, estando ainda muito longe da metade do que se consome de carne bovina ou de frango. Em relação à urbanização, pode-se constatar que os domicílios situados na área rural são mais propensos ao consumo de carne suína, e menos propensos ao consumo de carne bovina e de frango do que os situados no meio urbano. No ambiente rural as famílias gastam 63% a mais com carne suína do que quem vive em áreas urbanas. Vale lembrar, que atualmente apenas 16% da população brasileira reside em áreas rurais (IBGE, 2010). Esse é um dado interessante da pesquisa, mostrando que pode haver uma relação mais próxima da carne suína com quem mora no campo, motivado talvez pela cultura local e os hábitos alimentares que vão passando de pai para filho nesses locais mais afastados dos centros urbanos.
 
Os fatores socioeconômicos também são fundamentais. Em um cenário geral a pesquisa mostrou que a renda exerce uma influência positiva e altamente significativa na probabilidade de consumo dos três tipos de carne, ou seja, o aquecimento da economia com maior renda da população em geral, ajuda a aumentar o consumo domiciliar de carnes pelo brasileiro. O estudo analisou também o dispêndio com cada tipo de carne, isto é, quanto a família gasta por mês em cada caso. O gasto mensal com a carne bovina foi de R$ 26,97 em média, valor que passa para R$ 27,08 na área urbana e para R$ 26,33 na rural. No caso do frango, o gasto médio mensal familiar foi de R$ 12,84, sendo R$ 12,70 no meio urbano e R$ 13,65 no rural. Já com relação à carne suína, há uma grande diferença entre o dispêndio nos domicílios urbanos e rurais. Com um gasto médio mensal familiar de R$ 5,32 para o Brasil, R$ 4,85 para o meio urbano e R$ 7,92 para o rural – o que novamente reforça o maior consumo de carne suína em áreas rurais.
 
Há também a influência da conformação da família, pois nos domicílios onde o chefe da família é homem há maior probabilidade de se consumir carnes do que em domicílios onde o chefe é mulher. Já a idade da mulher, chefe de família ou cônjuge, apresentou um efeito significativo apenas para o consumo de carne bovina e suína. Os resultados mostram que os domicílios com donas de casa mais velhas apresentaram uma maior probabilidade de consumir carne bovina e uma menor probabilidade de consumir carne suína em relação às famílias com donas de casa mais jovens. Uma possível explicação para isso é que pessoas mais jovens geralmente têm mais acesso à informação, e consequentemente recebem menor influência dos mitos antigos (e que vêm caindo), em relação à carne suína.
 
Entender melhor qual o nível de influência dos fatores socioeconômicos e demográficos associados à mudança no consumo alimentar é muito importante para a formulação de políticas públicas e privadas relacionadas à alimentação. Ou seja, esses dados podem e devem ser utilizados para o planejamento de estratégias de apresentação e promoção de produtos muito importantes para a economia do país, como a carne suína, que ainda é pouco consumida (em relação às outras carnes) pelos brasileiros.
 
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Fonte: Avicultura Industrial / Boletim Infosuínos