É preciso acabar com os tabus se quisermos que a reciclagem animal atinja todo o seu potencial. Essa foi a mensagem central da palestra “A influência do biodiesel no mercado de sebo” ministrada pelo coordenador da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra) Lucas Cypriano durante a Conferência BiodieselBR 2014. “A gente coleta todo o material de origem animal que descartado pelos frigoríficos, processa em altas temperaturas para eliminar qualquer patógeno e prensa ele para separar a farinha do óleo”, resume o palestrante.

Embora o setor de reciclagem animal ainda esteja se estruturando aqui no Brasil – a Abra foi fundada em 2006 –, Lucas ressalta que a Organização Mundial de Saúde considera que essa atividade um “serviço público essencial” uma vez que remove resíduos que certamente se tornariam um enorme passivo ambiental e o transforma em produtos de alto valor econômico como insumos para a produção de rações, para a indústria de higiene e limpeza e – no caso em questão – para a fabricação de biodiesel.

Logo de saída, Lucas trouxe um dado que mostra o enorme potencial que a reciclagem animal pode vir a ter conforme sua cadeia de consolide: em média 39% de cada boi abatido no país é formada por sobras que não podem ser aproveitados pela indústria de alimentos; esse índice cai para 28% no caso de frangos e para 24% nos suínos. E, como o Brasil é um dos maiores produtores de carnes do mundo, isso significa que os volumes processados pela indústria já são substanciais e tem tudo para continuar crescendo nos próximos anos.

Nas contas da Abra, o volume de resíduos animais processados pela indústria anualmente já ronda a merca das 12,5 milhões de toneladas por ano – volume que seria suficiente para encher o estádio do Maracanã duas vezes. “E ainda sobraria para lotar o Maracanãzinho”, brinca apontando que as estimativas do setor apontam para um crescimento de 22,5% nos próximos 10 anos.

A maior parte desse material processado acaba voltando para a cadeia da produção de proteínas animais na forma de farinhas que servem como insumo para a fabricação de rações. “A gente está reciclando cálcio e minerais. Essa é uma matéria-prima vital para que o Brasil continue sendo competitivo no mercado de carnes”, alegra-se. 

Embora a farinha seja o principal volume da indústria, os óleos e gorduras também são um mercado dos mais importante com um volume produzido que já chega a 1,97 milhões de toneladas. Destas 31,7% têm como destino final a fabricação de biodiesel – atrás somente do setor de higiene e limpeza que absorve 35% do volume produzido. 

Preço
Apesar do segundo lugar, Lucas explica que a consolidação do mercado de biodiesel a partir de 2008 fez toda a diferença para as empresas do setor de reciclagem animal. Segundo ele, a grande diferença está na sustentação dos preços do produto num novo patamar. A tonelada de sebo que chegava a custar R$ 800 em 2006 disparou para mais de R$ 1.800 em 2008. De lá para cá os preços têm variado entre R$ 1.400 e R$ 1.800. 

O palestrando explica que essa nova realidade vem de uma maior vinculação entre o preço do sebo e o do óleo de soja. “Antes o sebo chegava a ser de um quarto em relação ao óleo de soja. Depois de 2008, a relação ficou em, no mínimo 69%, com uma média de 86,5%”, comemora.

Evidentemente, nem todo mundo ficou feliz com essa nova realidade. “O setor de saboaria está sofrendo com isso”, reconhece Lucas. Ele diz que no mercado de sabão em barra os preços são inelásticos tanto porque a decisão de compra do cliente final é muito sensível ao preço do produto, especialmente num momento no qual o crescimento da economia brasileira permitiu que boa parte da classe média baixa comprasse máquinas de lavar roupa. “As saboarias tiveram que aprender a competir em novos patamares de preço”, reconhece Lucas.

Tudo leva a crer que o uso do sebo bovino – e de outros gorduras de origem animal – pelo setor de biodiesel continue a crescer no futuro. “A gordura animal está se estabelecendo como um player no mercado e que outras gorduras animais já estão aparecendo nas estatísticas de forma mais visível”, comenta. Ele também reclama que, apesar da importância o sebo não conta com apoio público e não está incluída o Selo Combustível Social – que cria vantagens para as usinas que usam matérias-primas produzidas pela agricultura familiar.

Mais 
Mesmo assim, as empresas do setor de reciclagem têm se mostrado bastante interessadas em aumentar sua participação como fornecedoras do setor de biodiesel. Como prova disso, Lucas comenta que, antes do PNPB, as farinhas fabricadas pelo setor tinham teor de gordura entre 12% e 16% porque o sebo não era um produto comercialmente vantajoso, mas que, hoje, o teor foi reduzido para algo entre 10% e 12%. “Isso foi um ajuste simples no nosso processo produtivo que disponibilizou mais 110 milhões de litros de sebo”, explica. Com a adoção de novas tecnologias seria possível aumentar a extração de gorduras para algo entre 7% e 9%, garantindo uma oferta adicional de outros 110 milhões de litros.
 

Outro ponto que poderia representar um verdadeiro salto para o segmento seria a adoção da prática da coleta e reciclagem de animais que morrem antes de chegarem ao frigorífico. “O Brasil não coleta e nem processa as carcaças de campo, de gado que morre naturalmente. Nos Estados Unidos, onde a atividade existe mas não é obrigatória, foram coletadas 1,7 milhão de toneladas em animais mortos no ano passado e na União Europeia, onde é obrigatório, foram 2,4 milhões de toneladas. Não são volumes desprezíveis”, aponta.
 

Hoje, a prática corrente nas fazendas brasileiras é fazer a compostagem dos animais mortos, o que gera problemas ambientais e sanitários e aumenta os custos dos produtores rurais. Por causa disso, a Abra estima que sejam perdidas cerca de 1,72 milhão de toneladas de carcaças animais que poderiam ser reprocessadas. Embora reconheça que não seja possível chegar a um reaproveitamento de 100% porque ainda há muitos rincões onde a produção não teria a densidade necessária para tornar a atividade rentável. Mas nas localidades onde as criações já estão modernizadas seria possível viabilizar mais esse elo da cadeia. “Esse é um passivo ambiental que não estamos levando em conta”, conclui. Ele estima que seria possível colocar quase 490 milhões de litros de sebo a disposição do mercado se esse volume fosse devidamente aproveitado.
 

Um dos problemas relatados por Lucas é a falta de regulação para o segmento. “A gente tem ausência de legislação”, conta revelando que um projeto piloto que estava sendo desenvolvido pela Embrapa precisou ser descontinuado por falta de regras que permitissem que a coleta fosse feita de forma legal. Esse piloto revelou uma segunda coisa: a atividade geraria ganhos também o produtor rural. “O animal morto deixou de ser só um prejuízo. Eles não querem voltar atrás porque a situação em que eles vivem é muito insalubre”, afirma. 
 

“Precisamos gerar e harmonizar as leis e eliminar o tabu em torno da reciclagem animal a fim de otimizar os recursos. Para isso precisamos de uma união entre o setor de reciclagem e outros setores incluindo o de biodiesel”, finaliza.
 
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Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com 
A matéria orginal você encontra em: http://www.biodieselbr.com/noticias/eventos/conferencia-biodieselbr-2014/a-evolucao-da-reciclagem-animal-181114.htm